A rotina das famílias mudou depois da chegada da pandemia da Covid-19. Com o surgimento do vírus, escolas foram fechadas, a maioria dos serviços migrou para o home office e os pais reinventaram os hábitos com as crianças no isolamento.

Ao Diário da Amazônia, a psicóloga infantojuvenil Háyla Verena explicou que a principal dificuldade dos pais é criar uma disciplina com os pequenos durante o período, e contou como a restrição da pandemia pode propiciar instabilidade emocional na vida de pais e filhos.

“O confinamento pode propiciar instabilidade emocional à criança, considerando principalmente a ausência do ambiente escolar, um espaço de desenvolvimento cognitivo e socioemocional. A ausência desse espaço físico acaba limitando, de certa forma, a interação com outras crianças e restringindo experiências para o desenvolvimento da criança”, disse a especialista.

Trabalho remoto e aulas online

Pedro Vilarim é o pai do Miguel e do Francisco de 10 e 12 anos. Ele explica que lidar com duas crianças estudando em casa, enquanto trabalha remotamente, tem sido um desafio.

“Lidar só com aula online ou só com home office, um de cada vez, já seria bem desafiador. Dar conta das duas coisas juntas se torna ainda mais complicado. No começo, não tinha computador ou celular pra todos, ficávamos nos revezando. Enquanto um assistia aula no computador, o outro usava o meu celular. Para esse ano, conseguimos nos organizar melhor. Normalmente, pela manhã eles fazem as aulas, e à tarde eu cumpro as demandas do home office. Tem funcionado”, disse.

É o mesmo caso de Taila Verlingue, mãe do Lucas Gabriel, de 3 anos. Ela afirma que a primeira dificuldade foi lidar com o ensino à distância, administrar o “pique” do filho enquanto cuidava de tarefas domésticas e do emprego, e ao mesmo tempo ajudar a criança a entender que não está permitido abraçar os amigos, devido ao que está acontecendo no mundo.

“Sempre que precisamos sair para algum lugar, quando está chegando ou quando ele sabe que vamos sair, ele já pergunta sobre lá ter o coronavírus. Está sempre em estado de alerta com o vírus, o mesmo acontece quando eu ou o pai chegamos do serviço. Ele sabe que precisa esperar para abraçar, pois precisamos tomar banho e trocar de roupas para depois abraçar”, disse.

Cuidados com as emoções

A psicóloga destaca que a dinâmica familiar sempre terá uma influência significativa no comportamento apresentado pela criança. Segundo Háyla Verena, durante a pandemia as demandas de ansiedade e tristeza em decorrência do distanciamento dos amigos aumentaram.

“As crianças também estão vivenciando o luto pela perda do ente querido, casos de separação dos pais (aumento do número de divórcio). Pais devem prestar atenção nos sintomas de desânimo, irritabilidade, perda ou ganho de peso, sono agitado ou dependência excessiva dos pais. Ter diálogo familiar, promover espaço de escuta, acolhimento e, acima de tudo, paciência, tolerância e compreensão”, afirma.

Para a especialista, a humanidade vive um cenário social difícil para todos. “Algo jamais vivenciado antes, e tudo que é novo, que foge do nosso controle, nos traz inquietação, ansiedade e instabilidade emocional, ainda que seja, por um momento”, disse.

Tempo de uso das telas

Outra dificuldade é equilibrar o tempo do uso de telas no momento em que não é permitido sair para brincar com os amigos. A psicóloga explica como restringir o tempo das tecnologias.

“Estabeleça horários para fazer uso das telas, pode ser combinado até com a própria criança. É importante reduzir o uso, mas também propor atividades alternativas para não deixar a criança ociosa. Promover atividades lúdicas, jogos de tabuleiro ou atividades artísticas são ótimas opções para envolver a criança e promover fortalecimento de vínculo familiar. Por fim, papais, sejam modelos. Sejam os primeiros a reduzirem o uso de suas telas”, disse.

Foi a alternativa que Vilarim encontrou para distrair os dois filhos no momento em que não podiam sair para gastar energia nas fases mais graves da pandemia. “Com o tempo, fomos fazendo acordos, tentando inventar brincadeiras fora das telas, jogos de tabuleiro, UNO, desenho, ou mesmo tentar aliar o tempo de tela a um lazer mais construtivo, como assistir algum filme ‘do meu tempo’. A recepção no geral foi boa”, contou.

Mais participação na vida dos filhos

Para o pai, foi interessante acompanhar mais de perto o processo de aprendizagem dos filhos, observar suas preferências, as dificuldades, o orgulho em receber um elogio da professora, entre outras.

“Passado todo esse tempo desde o início da pandemia, penso que nos adaptamos bem. Passei a me sentir um pai mais inteiro e não só um condutor para a escola, para o treino ou médico. Mas queremos urgentemente que as aulas voltem ao presencial assim que for seguro”, disse Pedro.

Para Taila, estar mais presente na vida do filho foi um grande diferencial. “Na escola, ele tinha mais independência e amigos, ele sente muita falta de brincar com outras crianças. Precisamos estar mais presentes, já que eles não podem sair, estamos tentando fazer os dias mais divertidos com brincadeiras, além das que já tinham”, contou a mãe sobre a nova rotina.

“Os pais são o espelho”

Com relação à mudança no comportamento das crianças, a psicóloga Háyla Verena diz que não tem dúvidas de que a pandemia deixará resquícios. Para ajudar na jornada de uma relação mais saudável, ela usa o seu perfil no Instagram para orientar os pais no período de isolamento.

Segundo a psicóloga, a pandemia demanda dos pais e cuidadores uma alta capacidade de resiliência para garantir medidas de proteção à saúde das crianças e adolescentes. “Os pais são o espelho. A dinâmica familiar sempre terá uma influência significativa no comportamento apresentado pela criança. Tudo varia de acordo com a idade, características individuais, o contexto familiar e social e o jeito com que os adultos ao redor lidam com a situação”, finaliza.

Diário da Amazônia